Weegee: Two Offenders In The Paddy Wagon

Membros:

Hoplita
Narciso
Arcadea-Leal

10/06/13

A desinquietante estranheza



Luigi Ghirri,Bastia [from the series Kodachrome].1976


As porções do espaço fotografado recortam do campo do visível estranhos parentescos. Este estranhamento não é inquietante; ao invés, ele transporta uma tepidez desarmante, uma quietude íntima e ao mesmo tempo longínqua do tempo sombrio, frio, do presente. A estranheza vem do facto de estas imagens estabelecerem aproximações de parentesco com um modo de contemporaneidade do visível.

O presente é o horizonte do tempo mais intangível à experiência porque o presente é o requisito de toda a nossa experiência. Nesse sentido, o presente é o que é mais próximo de nós e o que está mais longínquo da nossa experiência, uma vez que é o seu sustentáculo, a sua fonte, a sua condição de presença. Por outras palavras, se toda a nossa experiência aparece por meio do presente, o presente desaparece instantaneamente com o objecto da experiência.  

O acesso ao presente é modal, quer dizer, é categorial. A realidade, tal como é vivida que é disso que aqui se trata, é mais do que simples representação e menos do que coisa, mesmo que com tais oposições binárias não se chegue a acrescentar realmente nada de substancial à questão. O poder de fascínio dos nomes é tal que substantivamos, coisificamos, o real julgando que assim o conhecemos, quando, na verdade, o conhecimento não é senão a experiência de nomeação de um sentimento originário em relação ao presente. 

A natureza modal do acesso ao presente responde à questão da estranheza diante desta fotografia de Ghirri. Nela o presente é experimentado na contemporaneidade com um sentimento de estranho parentesco com um lugar que é um quase-corpo, um quase-tempo, uma quase-visão; mesmo que uma tal estranheza só se dê na sua máxima intensidade, se a relação com o presente for a da familiaridade com o sentimento de inquietante estranheza.  

Porque, na familiaridade quotidiana, é sob o aspecto do peso da inquietação que o presente se configura que as fotografias de Luigi Ghirri têm na leveza, como diferença face ao comum e estranhamento face ao familiar, um parentesco misterioso com uma existência saudosa. Porém, é preciso  existir  como virtualidade do presente para que o sentimento de estranheza, sob o aspecto da leveza, não redunde num saudosismo alienante.

01/05/13

"Some Came Running" de Vincente Minelli




Some Came Running, Vincente Minelli.


Um melodrama soberbo realizado por Vincent Minelli, com um Sinatra que quase nos convence de que estamos a vê-lo igual a ele próprio, Some Came Running (estreado em Portugal por volta de 1959 com o título «Deus Sabe Quanto Amei») é por certo uma das mais sofisticadas expressões  produzidas pelos estúdios de Hollywood de um cinema comprometido com a crítica de costumes. Como todo o exercício crítico que se preze envolve, inevitavelmente, um diagnóstico sobre o estado de coisas ( que em Some Came Running corresponde ao exame das instituições da sociedade americana dos '50, especialmente a família), este filme não foge à regra e projecta na imagem da vida dos habitantes de uma pequena localidade do Midwest, a forma de vida da cultura americana do pós-guerra. 

O enredo não é propriamente complicado, é aliás bastante simples, como é simples e previsível o comportamento da grande maioria das personagens, se não contarmos com a «simplória» Ginnie (Shirley MacLaine) - simplória aos olhos dos verdadeiros simplórios e pusilânimes que, em graus distintos, são todas as outras personagens. Mas, o que vai complexificar o desenvolvimento do enredo não são as acções das personagens, mas as paixões, não são os seus diálogos, mas as inflexões na voz, não são as suas posições na escala social, mas as pontuações que não se encaixam na ordem social que regula as relações entre  as personagens  - pontuações musicais e relações cromáticas que prenunciam abalos inesperados no estado de coisas, pontuações inesperadas que desmascaram a hipocrisia da ordem estabelecida da qual todos são reféns, com a excepção, claro, da dócil e ingénua Ginnie.     
Um filho da terra que, após anos a deambular por aqui e por ali, regressa finalmente à província não é um tema muito inovador.  Ficamos a conhecer isso assim que acaba a cena com que começa Some Came Running. Cena que começa assim: Dave (Sinatra) com farda militar, dentro de um autocarro, dorme durante uma viagem intercalada por dias e noites; sem qualquer indicação adicional, desconhecemos o destino daquela viagem; o acompanhamento musical é incompreensivelmente angustiante se o perspectivarmos por relação com as imagens de Dave tranquilamente a dormir no autocarro. Precisamos de esperar pelo fim do filme para percebermos melhor o significado funéreo daquela música: naquele autocarro segue alguém que comprou um bilhete só de ida.

Esta cena inicial é só por si magistral como epítome dos vários níveis de sentido presentes no filme. Quando o autocarro pára no destino, Dave acorda e não sabe exactamente onde está; quando o motorista o informa ficamos a saber que para ele aquele é, provavelmente, o último destino do mundo onde pretendia estar. Por uma casualidade da noite anterior, está de volta à procedência, mas não seguiu sozinho; levou consigo uma companhia dessa noite a quem fizera promessas de casamento. Esta cena tem, a dada altura, um momento breve, mas extraordinário. É quando Dave, não escondendo a frustração por estar de regresso sem querer, apazigua a angústia ao encontrar no interior das suas calças, junto ao ventre, o que aparenta ser um maço de dólares. Uma situação semelhante repete-se momentos depois, quando Dave ao justificar com o efeito da bebida as promessas feitas a Ginny na noite de véspera, despede-se com uma nota de cinquenta dólares que ela, em vez de guardar na carteira que trazia consigo, a esconde junto ao peito.  Minelli elabora aqui uma apresentação resumida das duas personagens principais realçando que a identidade entre elas assenta nas mesmas bases por mais distantes que as personagens se encontrem do ponto de vista da ordem social. Distância que as peripécias do filme irão até determinada altura agudizar e contextualizar por referência crítica à forma da cultura. A repetição do mesmo comportamento (com a conotação erótica evidente) reforça o laço entre os dois; um laço indissolúvel como veremos depois; um laço que vinca identidades que sobrevivem às divisões de classe, um laço mais forte que as oposições baseadas em tipologias sociais, em estratificações segundo o capital intelectual ou cultural; um laço que os une na cumplicidade que ambos manifestam com o seu próprio corpo, enquanto território erótico que serve, ao mesmo tempo, para guardar e para apaziguar.

Nas duas personagens, o corpo vivido sem anulação da sua presença própria mostra-se, subtilmente, nessa cena de abertura do filme: quer como reduto de protecção contra as ameaças exteriores (ele guarda o dinheiro no ventre, ela no peito), quer como campo de energia vital que ao reaparecer dissipa-lhes as inseguranças e restabelece o narcisismo primitivo imprescindível para se sentirem, de novo, em contacto consigo mesmos. Este comportamento, ou melhor, esta relação com o próprio corpo, distingue-os de todas as outras personagens, que de uma maneira ou de outra, submetem a relação com o corpo à vigilância de um poder alheio, poder com o qual convivem mal, que subordinam a relação consigo mesmos a uma mediação institucional (nomeadamente, a posição dentro do jogo social) com a qual não se identificam satisfatoriamente, resultando daí um sentimento de insatisfação profunda com a vida que levam, que cresce na exacta proporção da preocupação de todos eles pela salvaguarda das aparências.

Dave após regressar sem querer à procedência sente-se um outsider, um estrangeiro  entre aqueles que ficaram; não se esforça por disfarçar a repugnância que a pequena localidade do Indiana lhe suscita; este sentimento de aversão pela sociedade da terra de origem é o mesmo que sente pelo irmão mais velho, Frank, um comerciante bem instalado e obcecado com as aparências,  com um casamento que é uma farsa ( tão bem ilustrado pela organização da sua ourivesaria, dividida em duas zonas, a pública, onde se esforça por manter o aspecto de pai de família, de marido extremoso e cidadão exemplar e uma zona reservada, privada, o escritório, onde ficamos a conhecer a sensual e insinuante secretária com a qual ele vai mantendo um affaire).

O encontro entre os irmãos dá conta de que a relação entre eles vive de lembranças de mágoas mútuas que não ficaram sanadas, é feita na base de uma colisão permanente e de rivalidades contínuas. Rapidamente se percebe que o desprezo de Dave pela terra natal tem por base a conflituosa relação pessoal com Frank, o seu irmão mais velho; homem ambicioso e bem sucedido para os padrões morais do sistema estabelecido, ele é uma figura proeminente na terra, um homem que singrou porque cumpriu as expectativas morais da sociedade, às quais, por sua vez, Dave não se adaptou. Sentido-se, de facto, em território estrangeiro na sua própria terra, um estranho junto dos seus, como, de resto, atesta a sua roupa de militar, traje que enfatiza ainda mais os diferentes contrastes postos a descoberto com a sua chegada, Dave desempenha na economia narrativa um papel de agente simultaneamente de lucidez e de comicidade. A sua postura de confronto desassombrado com as gentes da terra e o desprezo pelas aparências da moral de província parecem fazer dele um ser, aparentemente, livre da farsa das conveniências. Mas não é bem assim e aqui entramos no registo cómico associado à sua personagem. Durante a primeira meia hora do filme, a sua presença e a forma como caminha pelo meio das pessoas, a forma como fala, o tom enfadado do seu estado de espírito, vestido com uma farda engomada, tem esse efeito de lucidez sobre o aspecto fraudulento daquela realidade social, ao mesmo tempo que  o torna uma figura cómica precisamente pelo contraste entre a sua postura desobediente e a roupa que traz vestida.

Todavia esse efeito de contraste esmorece à medida que, por pequenos gestos, se revela que por detrás daquele distanciamento em relação à realidade está, na verdade, uma arrogância ressentida - aqui a personagem adquire uma diferente densidade. Aquilo que tanto o incomoda na pessoa do irmão e da cunhada, aquilo de que ele sente repugnância na vida fútil e dissimulada que levam, regressa com violência ao tomar consciência de si, constatando com amargura que a sua vida não tem uma forma tão diferente da deles. A repugnância que sente por si é incomparavelmente maior que a que o mundo em redor lhe suscita, porque tem consciência de que, afinal, lhe falta exactamente o mesmo que falta ao irmão que  ele tanto despreza: isto é, a convicção profunda do incondicionado, enquanto vocação amorosa que, inabalável, dissipa as dúvidas e as crises de identidade. Apercebe-se que pertencem todos a uma condição idêntica, pertencem a uma condição de estranhos de si mesmos, de falhados, uns mais lúcidos outros menos, mas todos afectados por uma mesma situação de crise de identidade - de recusar ser algo que se é e de desejar ser algo que não se é. Com efeito, a amagura de Dave é infinitamente maior que a do irmão, que nem chega a ser amargura porque lhe falta o orgão da reflexão. Dave reflecte e quanto mais reflecte mais se sente à beira de um beco sem saída. Esta é gente descontente, mas segundo modos diferentes. Dave, descontente com a sua condição de solteiro; Frank, descontente com a sua condição de casado. Porém o descontentamento de Dave é mais profundo, daí o facto de não ser um descontentamento segundo um modo resignado, como é aquele em que vive Frank. Ele vive numa dúvida que não cessa de o atormentar. E enquanto assim for permanece numa situação de tensão, de inquietação, de movimentação em direcção ao objecto do desejo; desejo incessante que o predispõe apesar de tudo para amar.  

Parou de escrever, pensa seriamente em abandonar o ofício e não é por falsa modéstia que ignora  os elogios ao seu talento literário que a professora lhe endossa, é mais porque, num sinal de sinceridade, a sua  crise de identidade o leva a pôr em dúvida a sua correspondência com essa imagem. Esta situação de dúvida existencial mostra-se quando chega a depositar no lixo o manuscrito inacabado do seu último romance. Num assomo de consciência desfaz o gesto e devolve-o à vida suspensa da dúvida, retirando-o, sem grande convicção, do lixo. Ao mesmo tempo, arruma na estante do quarto do hotel os livros de autores consagrados (Steinbeck, Faulkner...) tratando-os como se fossem bibelots; parecem novos,  livros ainda por ler, autênticas relíquias, tal é o brilho que aparentam e o cuidado com que ele os segura, como se possuíssem algo de precioso, por contraste com o aspecto sujo e a forma indolente como lida com o manuscrito inacabado do seu futuro livro. Esta crise vocacional reveste uma significação importante tal como a relação fetichista com os livros dos seus escritores de referência. Este culto prestado aos escritores que admira, um culto esmerado, denuncia que o tipo de relação com a escrita é, essencialmente, mediado pelo brilho da popularidade; a crise de identidade era, apenas, uma questão de tempo, porque o sonho de ser escritor é, fundamentalmente, o sonho de ser como os escritores reverenciados, populares, famosos, bem sucedidos; é um sonho de ser como, que, por isso mesmo, dificilmente sobrevive aos testes da realidade. Afinal a distância entre os irmãos é praticamente inexistente tal como são ambos inexistentes, ou pelo menos assim se sentem, após terem, cada um à sua maneira, apostado a vida no desejo de sucesso.

Ginnie não pertence a este mundo, aspecto essencial para compreender a sua absoluta estranheza, o seu infinito contraste relativamente a todas as formas de estranheza vividas pelas outras personagens. A distância relativamente àquela realidade, nela reverte a favor da sua aura. A exuberância de Ginnie não é de carácter eminentemente sensual, mesmo que a sua presença não se faça por anulação voluntária da sensualidade. Ao invés, é pura objectualidade, num sentido que quase poderia dizer de transcendente; importa acrescentar que é uma transcendência relativa para com o mundo ambiente e uma imanência radical para com a própria vida. Do princípio ao fim do filme, as intenções de Ginnie mantêm-se as mesmas, o seu amor por Dave é inabalável, a sua graciosidade está lá para o felizardo que a conseguir ver. A ela cabe encarnar o real; o real que uma vez encontrado dissipa as dúvidas sobre a verdade; ela protagoniza a verdade existencial tão desejada por Dave, que apenas em desespero de causa desperta para ela; ela que esteve constantemente debaixo do seu nariz. Iludido pelas aparências ignorou Ginnie e cortejou a professora admiradora dos seus livros mas fria, inibida e incapaz de jamais saber viver o desejo senão reprimindo-o. Ginnie contém um magnetismo subestimado por todos quantos a rodeiam, em especial por Dave, imerso que está em dúvidas que lhe toldam o coração em ilusões amorosas. Ela tem o magnetismo da ideia enquanto corpo de afectos, por isso ela é transparente como o cristal, simples e inocente como uma donzela amada, graciosa e jovial como a alegria vital. Ginnie é uma ideia, uma ideia de verdade puramente afectiva. a verdade da pura imediaticidade; ela representa a feminilidade contida na graciosidade, a  inocência contida na jovialidade,  o amor contido na generosidade, a autenticidade contida na animalidade. Mas Ginnie é rejeitada, não encontra em Dave um amor correspondente ao seu; talvez porque o essencial seja mesmo invisível aos olhos, dela ele ( e Bama/Dean Martin) apenas retêm o aspecto de uma mulher insignificante e desajeitada, inculta e submissa, em suma, uma desmiolada. Não é por condescendência que Dave decide casar com Ginnie, para espanto do seu amigo do jogo e das noitadas; é porque viu pela primeira vez através de Ginnie a expressão crua de um amor ilimitado; por intermédio de Ginnie a verdade verdadeira, a verdade existencial, veio à existência com a intensidade de uma convicção, de uma fé, que se estende para lá de todos os limites e que o desarma finalmente da armadilha da dúvida.

Rezam as crónicas que Shirley MacLaine não terá sido a primeira escolha para desempenhar o papel; este era para ser interpretado por Joanne Woodard que o terá declinado por ter que contracenar com Frank Sinatra. Creio que hoje ninguém que viu o filme sentirá tal mudança como uma perda, pelo contrário, ficámos a ganhar! Até nisto, realidade e ficção estão em sintonia; com efeito uma repetição assim não é pura coincidência; é aliás uma repetição como esta que desafia a nossa descrença no tempo ( como sucessão, sem sentido, de ocorrências que se vão substituindo umas às outras ) porque quando uma mesma situação se repete em modos e tempos diferentes, a lição está lá para quem tiver a ousadia de ir além dos limites da experiência habitual do tempo, segundo a impressão de soma arbitrária e isolada de momentos, e acreditando neste modo de repetição viramos a vida do avesso. Shirley Maclaine foi segunda escolha para desempenhar o papel de Ginnie e nós agradecemos com alegria que assim tenha sido; Ginnie, a rapariguinha que gosta de peluches e roupas baratas, foi segunda escolha para Dave, depois de ser rejeitado pela culta e inteligente professora, e acreditamos que finalmente há alguém soube compreender que o real não é racional.

 Some Came Running, Vincente Minelli



26/04/13

Mantras

O ignorante não é ignorante por falta de saber, mas porque possui ao mesmo tempo o saber oposto.
O desmotivado não se encontra desmotivado por falta de motivação, mas porque possui ao mesmo tempo a motivação oposta.
O alienado não é alienado por falta de identidade, mas porque tem ao mesmo tempo a identidade oposta.
O infeliz não é infeliz por falta de felicidade, mas porque tem ao mesmo tempo a felicidade oposta.


05/04/13

Richard Prince #3

Richard Prince, Untitled(joke),2009



                                                             Richard Prince, Untitled(joke),1986



                                                              Richard Prince, Untitled(joke),2000

Richard Prince #2



Richard Prince, Untitled (Cowboy) 2000.



Richard Prince #1



Richard Prince, Cowboys&Girlfriends.1992

27/03/13

Raison d'état




Mao-Tse-tung (right) had Po-Ku (left) removed from the original photograph after-Po-Ku fell out of-favor with Mao.
The“Gang-of-Four” were removed from this photograph of a memorial ceremony for Mao-Tse-Tung-held at Tiananmen Square c.1976.


Benito-Mussolini had the horse handler removed from the original photograph-1942.


Adolf Hitler had Joseph Goebbels second from the right removed from the original photograph-c.1937


A commissar was removed from the original photograph after falling out of favor with-Stalin-c.1930



Queen Elizabeth and Canadian Prime Minister William L. King George VI was removed from the-original photograph. This photo was used on an election poster for the Prime-Minister, c.1939.



U.S. President Abraham Lincoln[portrait] is a composite of Lincoln’s head and the Southern politician-John Calhoun’s body, c.1860.



A verificação da autenticidade das mistificações documentadas pelas imagens não é fácil; por isso, recomendo ao leitor a devida cautela porque não houve maneira de confirmar se, efectivamente, a alegada manipulação ocorrera à data da sua publicação, ou se não serão elas próprias mistificações à posteriori sobre as ideias de mistificação, manipulação e mentira ligadas, obviamente, ao exercício moderno do poder político-ideológico.

Desde que a questão sobre a governança da cidade começou a ser estudada no Ocidente, que a legitimidade da mentira com fins políticos começou a ser debatida no quadro mais geral de uma teorização filosófica do politico. Porém, é certo e sabido que, quando mais altos valores se levantam, a verdade pode ser muito inconveniente no reino da política. Ora, esta consciência, que faz parte da atitude imediata de estar no mundo e que para se perpetuar jamais precisou de se alimentar das reflexões de grandes especialistas, nem das prédicas paroquiais, ainda não existia, tal e qual, nas reflexões dos Antigos sobre a natureza da política.  

Entre os Antigos o debate entre verdade e política tinha foros de relação conflituosa, porque emergira no seio de um conflito entre duas formas de vida: a vida do filósofo e a vida do não-filósofo. O aristocrata Platão acentua fortemente a oposição aqui em causa. O filósofo pertence, claramente, a uma casta à parte, a dos aristoi, daqueles que se ocupam do conhecimento da verdade. O ministério filosófico corresponde menos a um cargo do que a uma atitude; ele exige o recolhimento e o isolamento do mundo, como formas privilegiadas de relação com a ordem interna e necessária do ser. Para conhecer o imutável, o necessário e o universal, o homem necessita de se afastar dos assuntos mundanos e encetar, solitariamente, um caminho de aproximação introspectiva da verdade. Claro está que o modo de vida desta casta colide frontalmente com o modo de vida do cidadão, exclusivamente ocupado com assuntos humanos, mutáveis, contingentes e particulares, e por essa mesma razão unicamente capaz de formulação de opiniões, também elas mutáveis, contigentes e particulares. Nesta medida, o fulcro do problema que Platão tem em vista não é o da oposição entre verdade e falsidade ou mentira, mas entre conhecimento e erro ou, o que vai dar igual, entre verdade e opinião. Na mira de Platão encontra-se, portanto, o ignorante e não o mentiroso. O combate é travado ainda num terreno menos equívoco do que aquele a que hoje temos a infelicidade de pertencer: o do cinismo. O objecto da filosofia é o necessário e o universal, logo o problema da mentira está excluído, porque um filósofo ignorante e, mais ainda, mentiroso, é, para o aristocrata Platão, uma verdadeira aberração. Por seu turno, já o mero cidadão, em virtude do facto de, aos olhos aristocráticos de Platão, lidar unicamente com assuntos contigentes forma apenas opiniões. Ele permanece encerrado na ignorância. Não pertence, obviamente, à casta dos aristoi, a única em condições de conduzir a política da cidade segundo princípios sólidos e inabaláveis. A cidade-fortaleza (do filósofo) apoiada na verdade em alternativa à cidade-acampamento (de todos os outros) apoiada na opinião e ignorância.    

A colisão entre a casta dos filósofos e todos os outros, obedece uma preocupação eminentemente moral. Platão opõe uns e outros, para edificar uma concepção de governo centrada na substituição do cidadão pelo filósofo ou, por outras palavras, na instituição da verdade como princípio político indispensável, sob pena da cidade sucumbir às mãos das paixões e dos inconciliáveis interesses dos seus membros. Para Platão, a verdade é exterior à vida da cidade, enquanto palco dos assuntos humanos. Ela permanece exterior a todos os politei, inclusivamente aos melhores dentre eles, os filosófos. Porém, no quadro de uma ordenação hierárquica que toma a verdade como referencial de distribuição das funções dos cidadãos, o governo político deverá caber ao filósofo, porque é ele quem mais próximo se encontra do conhecimento da verdade.  Aos olhos de Platão, à maneira de viver do filósofo corresponde uma forma de governo político, a qual, digam o que disserem, é, intransigentemente, elitista. A cada uma das formas de governo possíveis corresponderia um tipo de homem, ou melhor, uma maneira de viver. A cidade é, pois, como a alma do homem. Por sua vez, a relação do homem com os outros homens e consigo mesmo é semelhante à relação da alma com o corpo. Este isomorfismo atravessa as várias relações e liga todos os planos na unidade da relação alma-corpo. O macro-cosmos e o micro-cosmos espelham-se porque se organizam segundo um mesmo tipo de relação de natureza metafísica. Assim, a alma adoece, tal como a cidade também adoece, quando é conduzida por um tipo de vida completamente refém dos apetites inconstantes do corpo. Por isso, uma forma de governo correspondente a este tipo de vida,   entrega os assuntos da cidade à inconstância das opiniões e à luta insanável dos apetites. Esta é a forma de governo que Platão repudia de democrática, assente que está num tipo de vida que, indiferente à verdade, persegue apenas a concordância do maior número de opiniões para revestir-se de legitimidade. Ah, caro leitor, quantos de nós não passámos a evitar a releitura de tais eminentes textos por pura necessidade de evitar chocar com a verdade da nossa triste situação! Os textos de Platão são inclementes quando postos em contacto com os nossos tempos. E nós, que sabemos disso, tratamos de nos proteger do asco que sentimos, sobretudo connosco mesmos, ao vermos de frente a pusilanimidade da nossa postura. Já só secretamente concordamos que a política diz respeito à forma de governo correspondente à casta de homens que se governam a si mesmos segundo a inabalável certeza da eterna necessidade. 

O aristocrata Platão estaria longe de imaginar no que a política se tornaria depois de Maquiavel e Hobbes, que foram os principais progenitores filosóficos do modelo moderno de condução política: a raison d'etat. Todos os meios se configuram teoricamente legítimos e justificáveis quando em causa está a conservação do estado de coisas, a perpetuação da situação, a manutenção do poder, a unicidade do regime. O verdadeiro, o justo, o bom, dispõem de um valor condicionado, aliás, todos os princípios assumem um valor condicionado, quando comparados com a manutenção da ordem estabelecida e a defesa da propriedade. O político não necessita de pertencer à casta dos aristoi, a não ser como uma distinção estética. Acima de tudo, deve estar plenamente convicto de que em matéria de governo político da cidade, verdade e falsidade equivalem-se. Muito às custas do pensamento moderno de Maquiavel e Hobbes, a mentira passa assim a adquirir um estatuto político e uma razoabilidade no panorama das lutas pela segurança do Estado. É Hobbes quem defende, para cimentar esta concepção de autonomização do politico, que uma verdade da matemática como aquela que diz que a soma dos ângulos de um triângulo é igual à soma de dois ângulos rectos só mantém validade porque não colide com a busca do lucro e do bem estar do grupo mais poderoso da sociedade. 

Mas a raison d'etat  não é uma característica de formas totalitárias de poder político. Com efeito, Hobbes não se limita a justificar filosoficamente o absolutismo. Na verdade, ele fez mais que sustentar conceptualmente uma forma histórica de organização política; daí a actualidade do seu pensamento. Tornou inteligível um tipo de comportamento humano que é anterior à esfera do político, um tipo de comportamento disseminado e esquivo que tem lugar em quase todas as esferas do social, como a forma transcendental da intersubjectividade. A raison d'etat não se confunde, pois, com uma época específica, nem com uma forma de governo historicamente determinada, ela é supra-histórica, mesmo que só tenha vindo à existência através do pensamento filosófico, saindo assim do campo (imperceptível) do vivido. Trata-se assim de uma constante antropológica promovida a pedra de toque do político. Ou seja, comum a todas as formas de governo está o cuidado com a existência, que passa a assumir-se como essência do político, doravante autonomizado em virtude da circunscrição do seu campo ontológico. Uma tal exigência, apensa que está à necessidade vital de sobrevivência de um organismo, repõe a acção política em moldes inteiramente opostos ao platonismo. Moldes que não rompem com a atitude natural, antes a elevam a medida de valor da acção política - pois, espontaneamente, todo o mundo sabe que em caso de necessidade (e até de interesse, como o próprio Hobbes reconhece), mentir, falsear, ludibriar, enganar ou manipular podem ser mal menor, se, em contrapartida, a verdade for nefasta à conservação da existência. Um saber que não requer estudo, que não exige esforço para ser compreendido, que não depende propriamente do exemplo moral que intima à imitação, porque se alimenta dos vínculos mais básicos, mais instintivos, do agir humano.     

Hoje a raison d'état sobrevive intacta, ao contrário dos que pensam e acreditam que a sociedade humana caminha progressivamente para o aperfeiçoamento espiritual e para a felicidade do maior número. Não há contradição nenhuma entre as formas de governo do mundo ocidental e a raison d'état. Aliás, mais do que nunca as dinâmicas inerentes ao exercício do poder político são monitorizadas pelo calculismo e pela manipulação. «Mas, então e o bem comum?» perguntará o leitor; «Não será o bem comum o resíduo de justiça impermeável à hegemonia política da raison d'etat?». Subentendo na pergunta a ideia de que o bem comum corresponde àquela esfera com existência independente, como um reduto recheado de riquezas e valores que nenhuma das partes se atreve a profanar. Com o devido respeito, ao leitor respondo que tal universo paralelo não existe hoje, a não ser como expediente retórico que a nossa imaginação teima em fantasiar. 

Hoje, em que um reduto impermeável à raison d'etat tem apenas uma existência imaginária nada parece escapar à voracidade da exibição. A raison d'état não está em risco numa sociedade que apregoa os valores da liberdade de expressão de opiniões, de pensamentos e de associações, porque convive tranquilamente com uma situação que é tão mais iludível quanto mais exaustiva for a exposição pública das opiniões. Nada há que escape à profanação exibicionista do ecrã televisivo e ao contrário do que supunham os ideólogos políticos do totalitarismo, uma tal irrestrição comunicacional não belisca minimamente a autonomia da raison d'état. Não há entraves à liberdade de opinião, antes pelo contrário, fomenta-se a opinião, a divulgação, a exibição e até a informação, desde que, note bem, a informação perda valor de factualidade. «Não há factos, apenas interpretações». Pois bem, nestas singelas palavras de Nietzsche encontramos decifrada a matriz daquela profanação tão útil à perpetuação da raison d'etat. A informação assim que é exibida, sofre uma espécie de mudança de natureza, pois o meio da sua comunicação transforma o facto em interpretação e a verdade em opinião. Neste estado de coisas, o ecrã comunicacional tem verdadeiros poderes alquímicos. Porém, em vez de transformar ferro em ouro, faz precisamente o contrário.