Mao-Tse-tung (right) had Po-Ku (left) removed from the original photograph after-Po-Ku fell out of-favor with Mao.
The“Gang-of-Four” were removed from this photograph of a memorial ceremony for Mao-Tse-Tung-held at Tiananmen Square c.1976.
Benito-Mussolini had the horse handler removed from the original photograph-1942.
Adolf Hitler had Joseph Goebbels second from the right removed from the original photograph-c.1937
A commissar was removed from the original photograph after falling out of favor with-Stalin-c.1930
Queen Elizabeth and Canadian Prime Minister William L. King George VI was removed from the-original photograph. This photo was used on an election poster for the Prime-Minister, c.1939.
U.S. President Abraham Lincoln[portrait] is a composite of Lincoln’s head and the Southern politician-John Calhoun’s body, c.1860.
A verificação da autenticidade das mistificações documentadas pelas imagens não é fácil; por isso, recomendo ao leitor a devida cautela porque não houve maneira de confirmar se, efectivamente, a alegada manipulação ocorrera à data da sua publicação, ou se não serão elas próprias mistificações à posteriori sobre as ideias de mistificação, manipulação e mentira ligadas, obviamente, ao exercício moderno do poder político-ideológico.
Desde que a questão sobre a governança da cidade começou a ser estudada no Ocidente, que a legitimidade da mentira com fins políticos começou a ser debatida no quadro mais geral de uma teorização filosófica do politico. Porém, é certo e sabido que, quando mais altos valores se levantam, a verdade pode ser muito inconveniente no reino da política. Ora, esta consciência, que faz parte da atitude imediata de estar no mundo e que para se perpetuar jamais precisou de se alimentar das reflexões de grandes especialistas, nem das prédicas paroquiais, ainda não existia, tal e qual, nas reflexões dos Antigos sobre a natureza da política.
Entre os Antigos o debate entre verdade e política tinha foros de relação conflituosa, porque emergira no seio de um conflito entre duas formas de vida: a vida do filósofo e a vida do não-filósofo. O aristocrata Platão acentua fortemente a oposição aqui em causa. O filósofo pertence, claramente, a uma casta à parte, a dos aristoi, daqueles que se ocupam do conhecimento da verdade. O ministério filosófico corresponde menos a um cargo do que a uma atitude; ele exige o recolhimento e o isolamento do mundo, como formas privilegiadas de relação com a ordem interna e necessária do ser. Para conhecer o imutável, o necessário e o universal, o homem necessita de se afastar dos assuntos mundanos e encetar, solitariamente, um caminho de aproximação introspectiva da verdade. Claro está que o modo de vida desta casta colide frontalmente com o modo de vida do cidadão, exclusivamente ocupado com assuntos humanos, mutáveis, contingentes e particulares, e por essa mesma razão unicamente capaz de formulação de opiniões, também elas mutáveis, contigentes e particulares. Nesta medida, o fulcro do problema que Platão tem em vista não é o da oposição entre verdade e falsidade ou mentira, mas entre conhecimento e erro ou, o que vai dar igual, entre verdade e opinião. Na mira de Platão encontra-se, portanto, o ignorante e não o mentiroso. O combate é travado ainda num terreno menos equívoco do que aquele a que hoje temos a infelicidade de pertencer: o do cinismo. O objecto da filosofia é o necessário e o universal, logo o problema da mentira está excluído, porque um filósofo ignorante e, mais ainda, mentiroso, é, para o aristocrata Platão, uma verdadeira aberração. Por seu turno, já o mero cidadão, em virtude do facto de, aos olhos aristocráticos de Platão, lidar unicamente com assuntos contigentes forma apenas opiniões. Ele permanece encerrado na ignorância. Não pertence, obviamente, à casta dos aristoi, a única em condições de conduzir a política da cidade segundo princípios sólidos e inabaláveis. A cidade-fortaleza (do filósofo) apoiada na verdade em alternativa à cidade-acampamento (de todos os outros) apoiada na opinião e ignorância.
A colisão entre a casta dos filósofos e todos os outros, obedece uma preocupação eminentemente moral. Platão opõe uns e outros, para edificar uma concepção de governo centrada na substituição do cidadão pelo filósofo ou, por outras palavras, na instituição da verdade como princípio político indispensável, sob pena da cidade sucumbir às mãos das paixões e dos inconciliáveis interesses dos seus membros. Para Platão, a verdade é exterior à vida da cidade, enquanto palco dos assuntos humanos. Ela permanece exterior a todos os politei, inclusivamente aos melhores dentre eles, os filosófos. Porém, no quadro de uma ordenação hierárquica que toma a verdade como referencial de distribuição das funções dos cidadãos, o governo político deverá caber ao filósofo, porque é ele quem mais próximo se encontra do conhecimento da verdade. Aos olhos de Platão, à maneira de viver do filósofo corresponde uma forma de governo político, a qual, digam o que disserem, é, intransigentemente, elitista. A cada uma das formas de governo possíveis corresponderia um tipo de homem, ou melhor, uma maneira de viver. A cidade é, pois, como a alma do homem. Por sua vez, a relação do homem com os outros homens e consigo mesmo é semelhante à relação da alma com o corpo. Este isomorfismo atravessa as várias relações e liga todos os planos na unidade da relação alma-corpo. O macro-cosmos e o micro-cosmos espelham-se porque se organizam segundo um mesmo tipo de relação de natureza metafísica. Assim, a alma adoece, tal como a cidade também adoece, quando é conduzida por um tipo de vida completamente refém dos apetites inconstantes do corpo. Por isso, uma forma de governo correspondente a este tipo de vida, entrega os assuntos da cidade à inconstância das opiniões e à luta insanável dos apetites. Esta é a forma de governo que Platão repudia de democrática, assente que está num tipo de vida que, indiferente à verdade, persegue apenas a concordância do maior número de opiniões para revestir-se de legitimidade. Ah, caro leitor, quantos de nós não passámos a evitar a releitura de tais eminentes textos por pura necessidade de evitar chocar com a verdade da nossa triste situação! Os textos de Platão são inclementes quando postos em contacto com os nossos tempos. E nós, que sabemos disso, tratamos de nos proteger do asco que sentimos, sobretudo connosco mesmos, ao vermos de frente a pusilanimidade da nossa postura. Já só secretamente concordamos que a política diz respeito à forma de governo correspondente à casta de homens que se governam a si mesmos segundo a inabalável certeza da eterna necessidade.
O aristocrata Platão estaria longe de imaginar no que a política se tornaria depois de Maquiavel e Hobbes, que foram os principais progenitores filosóficos do modelo moderno de condução política: a raison d'etat. Todos os meios se configuram teoricamente legítimos e justificáveis quando em causa está a conservação do estado de coisas, a perpetuação da situação, a manutenção do poder, a unicidade do regime. O verdadeiro, o justo, o bom, dispõem de um valor condicionado, aliás, todos os princípios assumem um valor condicionado, quando comparados com a manutenção da ordem estabelecida e a defesa da propriedade. O político não necessita de pertencer à casta dos aristoi, a não ser como uma distinção estética. Acima de tudo, deve estar plenamente convicto de que em matéria de governo político da cidade, verdade e falsidade equivalem-se. Muito às custas do pensamento moderno de Maquiavel e Hobbes, a mentira passa assim a adquirir um estatuto político e uma razoabilidade no panorama das lutas pela segurança do Estado. É Hobbes quem defende, para cimentar esta concepção de autonomização do politico, que uma verdade da matemática como aquela que diz que a soma dos ângulos de um triângulo é igual à soma de dois ângulos rectos só mantém validade porque não colide com a busca do lucro e do bem estar do grupo mais poderoso da sociedade.
Mas a raison d'etat não é uma característica de formas totalitárias de poder político. Com efeito, Hobbes não se limita a justificar filosoficamente o absolutismo. Na verdade, ele fez mais que sustentar conceptualmente uma forma histórica de organização política; daí a actualidade do seu pensamento. Tornou inteligível um tipo de comportamento humano que é anterior à esfera do político, um tipo de comportamento disseminado e esquivo que tem lugar em quase todas as esferas do social, como a forma transcendental da intersubjectividade. A raison d'etat não se confunde, pois, com uma época específica, nem com uma forma de governo historicamente determinada, ela é supra-histórica, mesmo que só tenha vindo à existência através do pensamento filosófico, saindo assim do campo (imperceptível) do vivido. Trata-se assim de uma constante antropológica promovida a pedra de toque do político. Ou seja, comum a todas as formas de governo está o cuidado com a existência, que passa a assumir-se como essência do político, doravante autonomizado em virtude da circunscrição do seu campo ontológico. Uma tal exigência, apensa que está à necessidade vital de sobrevivência de um organismo, repõe a acção política em moldes inteiramente opostos ao platonismo. Moldes que não rompem com a atitude natural, antes a elevam a medida de valor da acção política - pois, espontaneamente, todo o mundo sabe que em caso de necessidade (e até de interesse, como o próprio Hobbes reconhece), mentir, falsear, ludibriar, enganar ou manipular podem ser mal menor, se, em contrapartida, a verdade for nefasta à conservação da existência. Um saber que não requer estudo, que não exige esforço para ser compreendido, que não depende propriamente do exemplo moral que intima à imitação, porque se alimenta dos vínculos mais básicos, mais instintivos, do agir humano.
Hoje a raison d'état sobrevive intacta, ao contrário dos que pensam e acreditam que a sociedade humana caminha progressivamente para o aperfeiçoamento espiritual e para a felicidade do maior número. Não há contradição nenhuma entre as formas de governo do mundo ocidental e a raison d'état. Aliás, mais do que nunca as dinâmicas inerentes ao exercício do poder político são monitorizadas pelo calculismo e pela manipulação. «Mas, então e o bem comum?» perguntará o leitor; «Não será o bem comum o resíduo de justiça impermeável à hegemonia política da raison d'etat?». Subentendo na pergunta a ideia de que o bem comum corresponde àquela esfera com existência independente, como um reduto recheado de riquezas e valores que nenhuma das partes se atreve a profanar. Com o devido respeito, ao leitor respondo que tal universo paralelo não existe hoje, a não ser como expediente retórico que a nossa imaginação teima em fantasiar.
Hoje, em que um reduto impermeável à raison d'etat tem apenas uma existência imaginária nada parece escapar à voracidade da exibição. A raison d'état não está em risco numa sociedade que apregoa os valores da liberdade de expressão de opiniões, de pensamentos e de associações, porque convive tranquilamente com uma situação que é tão mais iludível quanto mais exaustiva for a exposição pública das opiniões. Nada há que escape à profanação exibicionista do ecrã televisivo e ao contrário do que supunham os ideólogos políticos do totalitarismo, uma tal irrestrição comunicacional não belisca minimamente a autonomia da raison d'état. Não há entraves à liberdade de opinião, antes pelo contrário, fomenta-se a opinião, a divulgação, a exibição e até a informação, desde que, note bem, a informação perda valor de factualidade. «Não há factos, apenas interpretações». Pois bem, nestas singelas palavras de Nietzsche encontramos decifrada a matriz daquela profanação tão útil à perpetuação da raison d'etat. A informação assim que é exibida, sofre uma espécie de mudança de natureza, pois o meio da sua comunicação transforma o facto em interpretação e a verdade em opinião. Neste estado de coisas, o ecrã comunicacional tem verdadeiros poderes alquímicos. Porém, em vez de transformar ferro em ouro, faz precisamente o contrário.